Para quem trabalha com fornecimento marítimo, o termo bonded stores aparece com frequência nos pedidos de navios em longo curso. Mas para agentes, armadores iniciantes e até tripulantes que estão conhecendo o setor, a expressão ainda gera dúvidas especialmente sobre o que pode ser fornecido, como funciona o processo e quem tem direito a essa modalidade.
Neste artigo, explicamos tudo o que você precisa saber sobre bonded stores: o conceito, a lógica aduaneira por trás, os produtos mais comuns, o fluxo de fornecimento e os critérios que determinam quem pode solicitar.
O que são bonded stores?
Bonded stores traduzido literalmente como “estoques afiançados” ou “mercadorias alfandegadas” são produtos fornecidos a navios com isenção de impostos de importação e demais tributos incidentes sobre o consumo, desde que destinados ao uso e consumo a bordo durante a navegação internacional.
Na prática, são os itens que um shipchandler entrega ao navio com controle aduaneiro: bebidas alcoólicas, tabaco, confecções, eletrônicos, artigos de higiene pessoal e outros produtos que, fora desse regime, seriam tributados normalmente. A isenção existe porque esses produtos são tratados como “exportação para bordo” saem do território nacional sem integrar o mercado interno.
Essa distinção é fundamental. O produto não é importado pelo navio nem vendido no mercado local. Ele é fornecido sob custódia alfandegária, consumido em alto mar, fora da jurisdição fiscal do país de escala.

A lógica aduaneira por trás do regime
No Brasil, o fornecimento de bordo para navios em tráfego internacional é regulado pela Receita Federal e enquadrado como operação de exportação. Portanto, os produtos destinados ao uso e consumo de embarcações em longo curso são tratados com suspensão ou isenção dos tributos que incidiriam numa venda doméstica comum incluindo IPI, PIS, COFINS e Imposto de Importação quando aplicável.
Esse entendimento está alinhado com o que acontece em outros países: as autoridades alfandegárias controlam o estoque, exigem documentação completa, verificam selos e quantidades declaradas e podem lacrar os compartimentos onde os bonded stores ficam armazenados enquanto o navio está em águas territoriais. Nos Estados Unidos, por exemplo, a CBP (U.S. Customs and Border Protection) exige declaração formal dos itens no manifesto do navio e pode selar fisicamente os estoques durante a estadia em porto.
A premissa é clara: enquanto o navio não estiver em alto mar, os produtos não podem ser acessados ou consumidos. O benefício fiscal existe para a navegação não para o porto.
Quais produtos fazem parte dos bonded stores?
A categoria bonded stores abrange principalmente itens não essenciais à operação técnica do navio, mas voltados ao bem-estar e conforto da tripulação. Os mais solicitados incluem:
- Bebidas alcoólicas cervejas, destilados, vinhos e outras bebidas em quantidades definidas pelo armador ou pelo regulamento da bandeira do navio
- Produtos de tabaco cigarros, charutos e tabaco para enrolar de diversas marcas internacionais
- Alimentos e bebidas não alcoólicas refrigerantes, energéticos, sucos, snacks e chocolates
- Artigos de higiene e beleza perfumes, cosméticos e produtos de cuidado pessoal
- Eletrônicos e acessórios relógios, fones de ouvido, acessórios em geral, conforme disponibilidade e regulação local
A quantidade fornecida varia conforme o número de tripulantes, a duração da viagem e os limites estabelecidos pelo estado de bandeira da embarcação. Fornecimentos acima dos limites permitidos podem ser retidos pelas autoridades portuárias.
Como funciona o processo de fornecimento
O fluxo de bonded stores envolve três partes principais: o armador (ou capitão), o shipchandler e a alfândega. Veja como acontece na prática:
1. Pedido antecipado
O navio entra em contato com o shipchandler antes da chegada ao porto, informando os itens desejados, quantidades e data de atracação. Quanto mais cedo o pedido chega, mais tempo o fornecedor tem para organizar a documentação e a separação dos produtos.
2. Armazenamento em depósito alfandegado
Os produtos são retirados de um armazém alfandegado uma instalação autorizada pelas autoridades aduaneiras onde os bens ficam sob custódia sem incidência imediata de tributos. Esses estoques permanecem sob controle aduaneiro até o momento da entrega.
3. Documentação
Antes da entrega, o shipchandler prepara e submete toda a documentação exigida: declaração aduaneira, manifesto de carga, lista de itens com quantidades e valores, e os formulários específicos exigidos pela alfândega do porto. No Brasil, esse processo passa pelos procedimentos da Receita Federal aplicáveis ao fornecimento de bordo para exportação.
4. Entrega lacrada
Os produtos chegam ao navio lacrados, geralmente em embalagens com identificação de controle aduaneiro. O capitão ou responsável a bordo confere o material contra o manifesto e assina o recibo. Os lacres só devem ser quebrados após o navio deixar as águas territoriais do país.
5. Verificação
As autoridades portuárias têm o direito de inspecionar os compartimentos onde os bonded stores estão guardados, verificar os lacres e conferir as quantidades declaradas. Divergências podem resultar em retenção da carga ou penalidades para o armador e o fornecedor.
Quem pode solicitar bonded stores?
Essa é uma das perguntas mais frequentes e a resposta envolve dois critérios principais: o tipo de navegação e o tipo de embarcação.
Critério 1: Navegação internacional (longo curso)
O benefício do regime bonded está vinculado a navios em tráfego internacional, ou seja, embarcações que operam rotas entre países. Navios em cabotagem que navegam apenas em território nacional não têm acesso ao fornecimento duty-free, pois os produtos não saem do mercado interno.
Critério 2: Embarcação comercial registrada
O navio precisa ser uma embarcação comercial regularmente registrada, com agente marítimo habilitado no porto de escala. Navios de cruzeiro internacionais, porta-contêineres, graneleiros, petroleiros e outros tipos de carga em longo curso são os solicitantes mais comuns.
Na prática, quem faz a solicitação é o agente marítimo ou diretamente o armador / operador do navio, sempre com antecedência suficiente para que o shipchandler organize o fornecimento dentro dos prazos aduaneiros. O capitão é o responsável legal pelas quantidades declaradas a bordo.
O papel do shipchandler no fornecimento de bonded stores
O shipchandler não é apenas um distribuidor de produtos. No contexto dos bonded stores, ele assume também uma função burocrática e legal: é o elo entre o armazém alfandegado, a autoridade aduaneira e o navio. Precisa ter habilitação junto à alfândega local, manter registros precisos e garantir que todo o processo esteja dentro das normas vigentes.
Erros na documentação quantidades erradas, itens não declarados, lacres violados podem gerar problemas sérios para o navio, incluindo multas, retenção da carga e até detenção da embarcação. Por isso, trabalhar com um fornecedor experiente, que conhece os procedimentos de cada porto, faz diferença real na operação.
O fornecimento correto começa antes do porto
Bonded stores são um benefício regulatório que, quando bem gerenciado, representa economia real para o armador e qualidade de vida para a tripulação. Mas esse benefício vem acompanhado de responsabilidade: documentação rigorosa, controle de estoque, cumprimento dos limites por bandeira e respeito às regras de cada porto de escala.
Conhecer esse processo do pedido à entrega é parte do ofício de quem opera no setor marítimo. Se você precisa de suporte para fornecimento de bonded stores nos portos do Espírito Santo e Rio de Janeiro, entre em contato com a equipe da NAVSUPPLY. Estamos disponíveis 24 horas para atender a sua operação.











